"the haves have not a clue" - Edward Vedder
Se é já comum em mim um estado de espirito desassossegado, perplexo, sempre questionando, deprimido, incoerente, fugaz - na sua caminhada - demasiado turvo e vulnerável, neste dia sinto-me invadido por uma falta de comunicação que não fala da minha boca, algo que me atormenta e eu não sei... não sei... n-ã-o-s-e-i... o NÃO SABER absolutamente nada, o viver adormecido para a cruz que me é a vida, o recear o amanhã, o desejar o nunca mais.
Se normalmente a vida me pesa, hoje não suporto o peso da minha alma, não tenho forças para levantar o ser do meu eu e agir... e o nexo fala sem o ter.
Hoje, mais do que qualquer outro dia, é um excelente dia para deixar de existir, gosto da minha vida mas não do que a minha mente traiçoeira faz dela; amo as flores mas detesto o pólen que delas nasce, adoro pessoas, vê-las andar pela rua, sem rosto, mas é-me insuportável conhecê-las, descobri-las por dentro, pôr-me à prova como alguém relativamente sociável, quase simpático, quase modesto, quase hipócrita, quase eu.
As lembranças de uma morte sem anúncio, de uma vida roubada fora de tempo, de alguém que faz falta, deixam-me tristeza e vazio... o absurdo que é a vida quando esta acaba, as questões metafísicas já tão vulgarizadas num estado de alma próprio de idade, numa pessoa que não pertence a este tempo, duvido até que perteça a este mundo - eu. A tristeza nos olhos dos outros é o espelho da tristeza nos meus e eu hoje estou morto. Morto para seja quem for que me tente acordar, morto para mim mesmo e para o mero respirar que hoje é caro e inalcansável. A cada segundo que passa rezo por um qualquer acidente aéreo que cause com que o infortunado avião se despenhe precisamente no sitio onde me encontro, imediatamente acabando com a minha vida, fazendo de mim um mártir, evitando o suicidio. O medo de, até na morte, não ser aceite socialmente... Se eu ao menos fosse infeliz, se ao menos fosse um daqueles seres degenerados que todos aceitam as lamúrias, que todos compreendem a infelicidade e a vontade de pôr termo à própria vida... mas não... nem mesmo isso, ao invés, sou feliz por fora, um afortunado social, um bobo da sorte e do falso contentamento... e já nem sequer é inverno! Se hoje me matasse seria certamente ridiculo, logo agora, que faz sol!
A unidade relativa à existência de tudo não parece relativa à minha própria existência. Quando for um serei feliz, enquanto for muitos serei especial... pois ninguém é felizmente especial, muito menos especialmente feliz! Já estou como alguém que nunca existiu e que dizia "Se me perguntardes se sou feliz, respondervos-ei que o não sou"... pois é precisamente isso, a única diferença é que direi tudo isto com um sorriso na cara, um sorriso de alguém particularmente feliz, interiormente assombrado por fantasmas provenientes de portos desconhecidos, de quaisquer minas de carvão abandonadas - e porquê eu?
Para me matar, ao menos que me o faça num dia chuvoso, para que, ao passar na rua, não seja alvo de comentários crueis de gente feliz que, apontando o dedo, diria "Lá vai aquele, que se matou quando o sol estava a brilhar!"... isso não, ninguém faz troça de um morto, já é mau o suficiente estar condenado a uma eternidade num limbo purgatório, pior ainda se, ao tirar a minha vida, o faça num dia de calor.
Sá-Carneiro queria por força ir de burro, mas decerto pôs termo à vida num dia triste e com condições meteriológicas propícias a tal acto pecaminoso.
E, entretanto, nem sombra do avião... nem o minimo presságio de descanso, de uma morte desejada mas não causada, para ser lembrado como o pobre que nunca viu a morte a chegar, para ser recordado ao menos com algum carinho, com alguma falta, como eu recordo aquele que nos foi tirado... e a falta que nos faz, e o que significou para mim, uma alma já assombrada, o poder ver a morte tão de perto... qualquer pessoa diria que agora seria prudente ter medo Dela... nesse caso, não devo ser uma pessoa de senso, pois o meu único desejo é vê-la só um pouco mais de perto.
P.s. - "Morre cedo o que os Deuses amam" - Senti-mos a tua falta, decerto não sentes a nossa.