Saturday, November 19, 2005

Pretérito De Um Presente Sem Passado

Deixo aqui, en su triste soledad, uma das frases mais brilhantes que me foram dadas a conhecer em cem anos de literatura, retirada de uma das obras mais completas alguma vez escrita. Aqui vai:

" (...) Aturdido por duas nostalgias defrontadas como em dois espelhos, perdeu o seu maravilhoso sentido da realidade, até que acabou por recomendar a todos que saíssem de Macondo, que esquecessem quanto ele lhes ensinara sobre o mundo e o coração humano, que se estivessem nas tintas para Horácio, e que, fosse onde fosse que estivessem, recordassem sempre que o passado era mentira, que a memória não tinha caminhos de regresso, que toda a Primavera antiga era irrecuperável, e que o amor mais desatinado e persistente era, de todos os modos, uma verdade efémera."

Friday, November 04, 2005

Juntamente com o Gelo

"Não vou procurar quem espero, se o que eu quero e' navegar. Pelo tamanho das ondas, conto não voltar. Parto rumo à primavera... (...) esqueço tudo o que sou capaz, hoje o mar sou eu!" - Capitão Romance


Para não voltar ao mesmo, cedo todas as certezas, destranco todas as portas. Talvez semelhante à maravilhosa sensação que teve o Coronel ao descobrir o gelo, foi o meu reflexo no espalho – foi a descoberta de mim mesmo. Uma sensação de auto-descoberta equiparada apenas a uma queda livre, tão extasiante como assustadora.
Agora que sou eu, agora que me sinto bem como sou, estou livre para partir. Agora que não restam mais dúvidas, me foi considerada a dádiva da vida.
Tenho à minha espera terras inóspitas, gentes diferentes, e os estranhos habitantes de nenhures, em mares sem fundo. Posso redescobrir o mundo, redesenhálo só para mim.
Agora que o meu lobo ferido cicatrizou, posso lançá-lo ao mundo… ele não procurará matilha mas, ao invés, caminhará solitário sobre a terra, vivendo tudo aquilo com que, até agora, o pobre animal só sonhava.
Dentro de mim, foi necessário uma evolução rápida e incisiva, desde o little boy lost até ao megalómano, passando pelo anti-cristo e pelo egoísta exímio, sinto que agora, dentro de mim, regressei a umas origens nunca dantes navegadas. O totem do passado regressou, e levou-me até ao meu verdadeiro eu, físico e psicológico, onde eu não sou mais que uma solução de tudo aquilo que me rodeia, tudo se juntou e me criou – se tudo desaparecer, eu evaporarei juntamente com o gelo.

Saturday, October 29, 2005

Plato-Love

"Now look into my eyes, and tell me what do you see?..." - BM, When the sun goes down

(Exterior/Alpendre de uma livraria velha/Cidade)


Um rapaz acende um cigarro, hesitante, à medida que observa pelo canto do olho as pessoas que vão passando à sua volta. Veste um casaco de cabedal castanho por cima de uma t-shirt branca, jeans curtos e sapato de camurça.
Ao seu lado, uma rapariga na casa dos vinte – pouco atraente, com uma postura tão segura que a torna mais que desejável, única.
Cada um virado para um extremo da rua, olhando os transeuntes, esperando que algo aconteça.

Rapaz
(Vira a cabeça na direcção dela, ficam a um palmo de distancia)
- Eu amo-te, sabias?

Rapariga
(Sem desviar o olhar da posição inicial)
- E depois?

Rapaz
(Forçando um ar ultrajado)
- “E depois?” … Como assim “e depois?” O que é que queres dizer com isso?

Rapariga
(Ainda na posição inicial)- E depois? É suposto isso ter algum efeito em mim? Ou achas mesmo que vais continuar a dizer isso quando um dia me levares para a cama? Achas realmente que o amor é assim tão explicitamente detectável ou és daqueles que acredita no amor à primeira vista?

Rapaz
(Agora menos calmo, algo confuso e pensativo)
- Podias ao menos olhar para mim enquanto dizes isso. Apesar de tudo, acabei de dizer que te amo, alguma diferença isso há-de fazer, certo?

Rapariga
(Agora olhando nos olhos do rapaz)
- Não sei… deveria?

Rapaz
(Intimidado e atrapalhado, evitando o olhar dela)
- S-Sim… creio que sim… afinal de contas estamos a falar do sentimento mais forte do mundo, estou a tentar dizer que o que sinto por ti é amor genuíno, não é interesse nem alguma forma de apetite sexual… (sorri, em tom de gozo)

Rapariga
(Subitamente com um olhar triste)
- Isso vindo de ti não passa de uma palavra… Balzac disse “O amor é a única paixão que não admite passado nem futuro”… E tu? Como é que te chamas?


Rapaz
(Olhando-a nos olhos, lacrimejando de não pestanejar)
- Isso importa? Não te disse já o que sentia? Nietzsche disse que há sempre um pouco de loucura no amor, mas que há sempre um pouco de razão na loucura…. Já te tinha visto antes, a passear no parque. Tens um cão, não é?

Rapariga
- Não são mais que palavras… E, pensando bem, o teu nome não interessa… Costumas sonhar comigo? Alguma vez te sussurrei palavras de carinho num sonho? Costumas acordar melancólico? Será que alguma vez te estraguei algum dia?
(Aumentando o tom de voz no desenrolar das questões, cada vez mais perto da cara do rapaz)

Rapaz
(Agora com um ar infeliz, de D.Quixote derrotado)
- Bem, não… como poderia sonhar contigo se não te conhecia? Acabámos de nos conhecer, vamos não estragar tudo por agora…

Rapariga
(Com o mesmo tom frio do inicio)
- Enganas-te… nunca nos conhecemos, quem és tu para me falar em amor? Vamos não estragar tudo por agora… As tuas palavras não passam disso, e eu não as sinto.

Rapaz
(Olhando-a nos olhos, aproximando-se mais)
- Queres o meu casaco?



Fim de Cena

Thursday, April 28, 2005

Pessoa Morta em Tela Branca

"the haves have not a clue" - Edward Vedder


Se é já comum em mim um estado de espirito desassossegado, perplexo, sempre questionando, deprimido, incoerente, fugaz - na sua caminhada - demasiado turvo e vulnerável, neste dia sinto-me invadido por uma falta de comunicação que não fala da minha boca, algo que me atormenta e eu não sei... não sei... n-ã-o-s-e-i... o NÃO SABER absolutamente nada, o viver adormecido para a cruz que me é a vida, o recear o amanhã, o desejar o nunca mais.
Se normalmente a vida me pesa, hoje não suporto o peso da minha alma, não tenho forças para levantar o ser do meu eu e agir... e o nexo fala sem o ter.
Hoje, mais do que qualquer outro dia, é um excelente dia para deixar de existir, gosto da minha vida mas não do que a minha mente traiçoeira faz dela; amo as flores mas detesto o pólen que delas nasce, adoro pessoas, vê-las andar pela rua, sem rosto, mas é-me insuportável conhecê-las, descobri-las por dentro, pôr-me à prova como alguém relativamente sociável, quase simpático, quase modesto, quase hipócrita, quase eu.
As lembranças de uma morte sem anúncio, de uma vida roubada fora de tempo, de alguém que faz falta, deixam-me tristeza e vazio... o absurdo que é a vida quando esta acaba, as questões metafísicas já tão vulgarizadas num estado de alma próprio de idade, numa pessoa que não pertence a este tempo, duvido até que perteça a este mundo - eu. A tristeza nos olhos dos outros é o espelho da tristeza nos meus e eu hoje estou morto. Morto para seja quem for que me tente acordar, morto para mim mesmo e para o mero respirar que hoje é caro e inalcansável. A cada segundo que passa rezo por um qualquer acidente aéreo que cause com que o infortunado avião se despenhe precisamente no sitio onde me encontro, imediatamente acabando com a minha vida, fazendo de mim um mártir, evitando o suicidio. O medo de, até na morte, não ser aceite socialmente... Se eu ao menos fosse infeliz, se ao menos fosse um daqueles seres degenerados que todos aceitam as lamúrias, que todos compreendem a infelicidade e a vontade de pôr termo à própria vida... mas não... nem mesmo isso, ao invés, sou feliz por fora, um afortunado social, um bobo da sorte e do falso contentamento... e já nem sequer é inverno! Se hoje me matasse seria certamente ridiculo, logo agora, que faz sol!
A unidade relativa à existência de tudo não parece relativa à minha própria existência. Quando for um serei feliz, enquanto for muitos serei especial... pois ninguém é felizmente especial, muito menos especialmente feliz! Já estou como alguém que nunca existiu e que dizia "Se me perguntardes se sou feliz, respondervos-ei que o não sou"... pois é precisamente isso, a única diferença é que direi tudo isto com um sorriso na cara, um sorriso de alguém particularmente feliz, interiormente assombrado por fantasmas provenientes de portos desconhecidos, de quaisquer minas de carvão abandonadas - e porquê eu?
Para me matar, ao menos que me o faça num dia chuvoso, para que, ao passar na rua, não seja alvo de comentários crueis de gente feliz que, apontando o dedo, diria "Lá vai aquele, que se matou quando o sol estava a brilhar!"... isso não, ninguém faz troça de um morto, já é mau o suficiente estar condenado a uma eternidade num limbo purgatório, pior ainda se, ao tirar a minha vida, o faça num dia de calor.
Sá-Carneiro queria por força ir de burro, mas decerto pôs termo à vida num dia triste e com condições meteriológicas propícias a tal acto pecaminoso.
E, entretanto, nem sombra do avião... nem o minimo presságio de descanso, de uma morte desejada mas não causada, para ser lembrado como o pobre que nunca viu a morte a chegar, para ser recordado ao menos com algum carinho, com alguma falta, como eu recordo aquele que nos foi tirado... e a falta que nos faz, e o que significou para mim, uma alma já assombrada, o poder ver a morte tão de perto... qualquer pessoa diria que agora seria prudente ter medo Dela... nesse caso, não devo ser uma pessoa de senso, pois o meu único desejo é vê-la só um pouco mais de perto.

P.s. - "Morre cedo o que os Deuses amam" - Senti-mos a tua falta, decerto não sentes a nossa.

Monday, March 14, 2005

Bater no Fundo

A vida, tal como a conheci, acabou!
Quando acharem que isto já deu tudo o que podia dar,
Quando se sentirem fecundados por um embrião de merda,
Quando o corpo estiver preso mas a mente livre,
Quando o ar não for ar mas fumo - respirem-no,
Quando tudo aquilo em que um dia acreditarem estiver destruído,
Quando a vontade abandona o corpo débil,
Quando o álcool fermentar nas veias húmidas de doença,
Sintam-se completos, bateram no fundo.

Quando espreitarem para baixo, não hesitem, saltem!
Ah! Ousem cair de vida, ousem desistir de tudo e venham comigo,
A vida é um sonho... saltem e deixem-se bater no fundo...
Bater no fundo é paz, é loucura e é liberdade...

(...quando não tiverem nada a perder, não se percam...sigam-me...)


The Doors - Tell All The People

Tell all the people that you see
Follow me
Follow me down
Tell all the people that you see
Set them free
Follow me down
You tell them they don't have to run
We're gonna pick up everyone
Come out and take me by my hand
Gonna bury all our troubles in the sand, oh yeah
Can't you see the wonder at your feet
Your life's complete
Follow me down
Can't you see me growing, get your guns
The time has come
To follow me down
Follow me across the sea
Where milky babies seem to be
Molded, flowing revelry
With the one that set them free
Tell all the people that you see
It's just me
Follow me down
Tell all the people that you see
Follow me
Follow me down
Tell all the people that you see
We'll be free
Follow me down
Tell all the people that you seeIt's just me
Follow me down
Tell all the people that you see
Follow me
Follow me down
Follow me down
You got to follow me down
Follow me down
Tell all the people that you see
We'll be free
Follow me down
Tell all the people you see
Follow me
You got to follow me down

AHAHAHAH BRAAMMM! VRACK! pufffff.......

Tuesday, March 08, 2005

Justiça

Faço justiça no sono,
No limbo em que me divido;
(Taxas de câmbio, crises cíclicas, variações de temperatura
VAHK! Quero Paris, quero Roma e quero Paz)
Nascido sem me lembrar, criança que pára e não precisa de pensar…
Morte! Morte é o que nos lembra,
Que nos afasta e que nos desmembra!!!
Tac, tac, tac – barulhos ensurdecedores que me acalmam,
Quando repetidos, entre si, muitas e muitas e muitas…
Tenho vontade de gargalhadas, saudosismo do quem, enfim, já fora…
Hoje a temperatura é amena, não novo de nada, não cego de vista, não conto de fada!!!
Sois tristes!!! Sois tristes, ternuras que me assombram!!!
Tanto para receber sem nada para dar, receio ensanecer, receio não me lembrar…
Oh, quem dera ensanecer! Quem dera, enfim, ser louco e esquecer!
É este limbo que me mata, este status-quo do ser sem o ser, de facto;
Oh que fosse mito!
Oh que fosse sombra!
Oh que vontade de sugar a vida à gente, que
Me queda, que me apronta…
Tenho sede de viver, mas o viver me morre, deixa-me em becos…dos pensamentos;
Venham carros, venham grandes telas de fina espessura, consumam-me!!
A vida é uma bobine queimada, e o meu sonho tem medo de não sofrer…

- E, enfim, já em criança, passeando em boulevards,
a estátua de bronze é ouro…
mas no fim, quem morre, é outro (Oh, que pena não o ser…) –
[verde ranho, veia podre]

Sunday, March 06, 2005


silence the wooden tear, for this hand does not no fear... the angel went berzerk, the streets were deserted - is there a phone around here? - the hurting is too unbearable... I do not wish to die, but do I have a choice? The angel sings with heavenly voice... I dream of a future in grace... can't forget your smell, won't forget your taste...

Is it an Haiku though?!

1000 blue balloons, are them good? burn in bloom. A figure of speach, a dream-you soon, an obnoxious bitch, under the pale-blue moon...